O ruído eleitoral e a preservação patrimonial
Por que a preservação patrimonial deve ser decidida fora do calendário das urnas
A cada quatro anos, o mercado brasileiro se convence de que a próxima eleição vai refundar o país. Pesquisas viram indicador de preço, programas de governo viram tese de investimento e carteiras inteiras são remontadas em função de quem deve subir a rampa em janeiro. Para quem administra um patrimônio construído ao longo de décadas, essa pergunta é insuficiente. Mais útil é perguntar quais decisões se sustentam em diferentes resultados possíveis.
Trinta anos de Plano Real ajudam a colocar a questão em perspectiva. Levantamento de Michael Viriato, estrategista chefe da Casa do Investidor, publicado pelo InfoMoney em 29 de junho de 2024, simulou R$ 1.000 aplicados no início do Plano Real, em julho de 1994. No CDI, o valor chegou a R$ 76.464,62. No Ibovespa, chegou a R$ 29.587,94, cerca de 2,6 vezes menos (76.464,62 ÷ 29.587,94). No mesmo período, que atravessou oito eleições presidenciais, um impeachment e sucessivas crises fiscais, a inflação medida pelo IPCA levou os mesmos R$ 1.000 a R$ 7.585,09.
A comparação exige três ressalvas. Os valores são nominais e brutos: não descontam imposto de renda, taxas nem custos de transação, e a tributação difere entre renda fixa e ações e mudou ao longo do período. CDI e Ibovespa também não são investimentos equivalentes. O CDI é uma taxa de referência do mercado interbancário. O Ibovespa é uma carteira teórica de ações com retorno total, que considera o reinvestimento de proventos, mas que nenhum investidor replica sem custo. Por fim, o ponto de partida pesa: começar em 1994, com juros nominais excepcionalmente altos, amplia a vantagem acumulada do CDI, e janelas iniciadas em outras datas podem mostrar diferenças menores ou até invertidas.
Em termos anualizados, a diferença fica mais proporcional. Pelos números do levantamento, o CDI rendeu cerca de 15,6% ao ano e o Ibovespa cerca de 12,0% ao ano, com inflação média de 7,0% ao ano. Descontado o IPCA, o retorno real ficou em torno de 8,0% ao ano no CDI e 4,6% ao ano no Ibovespa, ainda antes de impostos e custos. (Cálculo: (valor final ÷ 1.000)^(1/30) − 1 para o nominal; (valor final ÷ 7.585,09)^(1/30) − 1 para o real.)
Esses números são evidência histórica das particularidades do mercado brasileiro, não prova de uma regra permanente. O desempenho do CDI resulta de uma combinação de fatores: a condução da política monetária, a inflação de cada período, as condições de liquidez e um histórico de riscos fiscais e macroeconômicos persistentes, compatível com juros elevados em governos de orientações distintas. Nada garante que essa combinação se repita. O que o histórico ensina é mais modesto e mais útil: os efeitos de mudanças políticas sobre juros, câmbio e preços são reais, mas difíceis de antecipar, e decisões patrimoniais estruturais não deveriam depender de acertar essa previsão.
As três camadas da riqueza familiar
Confundir patrimônio com saldo de aplicações é um erro comum. Para famílias empresárias, a riqueza opera em três camadas que funcionam como um único modelo de decisão. A liquidez da carteira sustenta a empresa em momentos de aperto. A concentração na empresa define quanto risco a carteira pode assumir. E a estrutura sucessória determina por quanto tempo e em que condições o conjunto se mantém.
Riqueza operacional. É a empresa da família, os imóveis ligados à atividade e os ativos de capital intensivo. Gera margem e caixa, mas está exposta a demanda, crédito, tributação e regulação, justamente as variáveis que o discurso eleitoral promete mexer. Sua resistência depende de vantagens que nenhum governo concede ou retira com facilidade: escala regional, custo de troca alto para o cliente, conhecimento acumulado em décadas.
Riqueza financeira. É a camada que dá à família tempo e capacidade de escolha. Cobre obrigações, preserva poder de compra e permite esperar que o ciclo político se acomode sem vender nada às pressas. Cada ativo aqui precisa ter função definida: liquidez, renda, proteção contra inflação ou crescimento. Quando todos competem pela mesma função, a carteira deixa de ser estrutura e vira aposta.
Riqueza institucional. São os veículos jurídicos, os acordos de sócios e os protocolos familiares que permitem transferir comando e patrimônio com menos atrito. Essa camada também é afetada por mudanças legislativas, que operam em três níveis. Na Constituição, a Emenda Constitucional 132/2023 incluiu o inciso VI no § 1º do art. 155, determinando que o ITCMD seja progressivo em razão do valor do quinhão, do legado ou da doação. Em âmbito nacional, a Lei Complementar 227/2026 estabeleceu normas gerais para sua aplicação. Nos estados, cabe à legislação local definir faixas e alíquotas, dentro do teto fixado pelo Senado. A progressividade, por si só, não permite concluir quanto uma sucessão específica vai custar: isso depende da lei estadual aplicável, da composição dos bens e do desenho da transmissão. A família dispõe de instrumentos de planejamento, dentro dos limites legais, que tendem a ser mais eficazes quando usados com antecedência e assessoria jurídica especializada.
Um risco central está na sobreposição. Quando empresa e carteira dependem das mesmas condições econômicas, uma única crise atinge as duas frentes ao mesmo tempo.
O risco de transformar a eleição em estratégia
Em anos eleitorais, é comum ver posições táticas montadas em torno da vitória de um candidato mais intervencionista ou mais liberal. Do ponto de vista de gestão de risco, essa prática merece cautela por três razões.
O grau em que o mercado antecipa o cenário varia conforme a eleição, o ativo e a liquidez, mas parte das expectativas costuma chegar aos preços antes da votação: acertar o vencedor não garante acertar o preço. Quem reorganiza a carteira com base na aposta pode incorrer em perdas, tributação e custos de transação se o cenário não se confirmar. E, para o empresário, a aposta muitas vezes se soma a uma exposição que a própria empresa já carrega.
Isso não significa ignorar a política. Mudanças fiscais, regulatórias e monetárias podem justificar alterações reais na alocação. A diferença está na origem da decisão: uma reavaliação fundamentada de riscos e retornos é gestão; uma aposta isolada no resultado das urnas é especulação.
Vale separar também volatilidade de perda permanente de capital. Uma carteira pode oscilar muito e continuar adequada aos objetivos de longo prazo, enquanto um ativo aparentemente estável pode esconder risco de crédito, iliquidez ou concentração excessiva. Para uma família empresária, a pergunta relevante não é se um investimento vai oscilar, mas se a estrutura suporta o cenário adverso sem comprometer obrigações, empresa ou sucessão.
Um framework por perfil patrimonial
O tamanho do patrimônio importa menos que sua composição. O que define a prioridade em ano eleitoral é onde está a concentração de risco.
Empresário com patrimônio concentrado na operação. A principal vulnerabilidade é a dependência do caixa de uma única empresa ou setor. No ciclo eleitoral, a análise deve se concentrar em uma reserva de liquidez capaz de atravessar um aperto de crédito, na separação entre finanças pessoais e da empresa e na cautela antes de ampliar a exposição às mesmas variáveis do negócio.
Família com patrimônio financeiro consolidado. O risco aqui é a tentação de girar a carteira conforme a narrativa da semana. A prioridade está na função de cada ativo, na exposição à inflação, no retorno real líquido de impostos e no casamento entre vencimentos e obrigações.
Família com estrutura multigeracional. As vulnerabilidades são o conflito sucessório e a concentração em uma única jurisdição. O foco está na governança formalizada, no planejamento sucessório e em uma diversificação geográfica compatível com os objetivos da família.
Os perfis não são excludentes. Uma mesma família pode reunir concentração empresarial, liquidez relevante e uma sucessão complexa, e é por isso que as três camadas precisam ser analisadas em conjunto.
Dois cenários, duas lógicas
Considere, hipoteticamente, um empresário industrial com patrimônio de R$ 25 milhões, a maior parte concentrada na própria companhia. Em janeiro, ele resgata a reserva aplicada em pós-fixados e compra ações de estatais e de empresas de consumo doméstico, apostando em um rali com a troca de governo.
Se o cenário não se confirmar, ele descobre que ampliou a exposição à mesma variável que move sua empresa: a economia doméstica. O problema não está em ter ações, e sim em ter consumido a liquidez que sustentaria a operação justamente quando ela pode precisar.
Agora considere uma família com R$ 60 milhões distribuídos entre participações empresariais, imóveis e investimentos financeiros, organizados em uma holding. Em vez de remontar a carteira com base em pesquisas, ela revisa suas necessidades de caixa, mede a exposição ao risco doméstico e confirma se cada ativo segue cumprindo sua função. Em paralelo, usa o período para avançar na sucessão, formalizando critérios de transferência de cotas e de participação dos herdeiros nas decisões.
A vantagem da segunda família não vem de uma classe de ativo nem da garantia de retorno maior. Vem da estrutura: liquidez, governança e sucessão integradas permitem avaliar cada decisão de curto prazo à luz de objetivos de longo prazo, sem depender do resultado das urnas.
Cenários e limites da tese
Em vez de prever o resultado de 2026, é mais útil mapear os canais pelos quais diferentes cenários macroeconômicos chegariam ao patrimônio. Os canais descritos a seguir são possibilidades, não previsões.
Deterioração fiscal. Os canais possíveis são o aumento dos prêmios de risco, a pressão sobre a curva de juros e a volatilidade cambial. O teste é se há liquidez para atravessar o período sem venda forçada e qual é a exposição a ativos de longa duração e à moeda local.
Consolidação fiscal. O cenário pode trazer redução dos prêmios de risco e reprecificação de ativos de maior duração, a depender das condições de mercado. A pergunta é se a carteira tem posições capazes de capturar esse movimento ou se está concentrada apenas em proteção.
Juros elevados por mais tempo. Parte da renda fixa ganha atratividade relativa, sem que desapareçam os riscos de crédito, inflação ou reinvestimento. O teste recai sobre a qualidade de crédito, os prazos da carteira e o custo de capital da empresa da família.
Em qualquer cenário, vale a diferença entre juro nominal e real. Uma Selic de dois dígitos não é ganho equivalente: o que preserva patrimônio é o retorno descontados inflação, impostos e custos, no prazo em que a família vai usar o dinheiro.
A ancoragem na moeda local é outro limite. A diversificação internacional pode reduzir a concentração no Brasil, mas introduz riscos cambiais, fiscais, regulatórios e sucessórios próprios, e precisa ser avaliada no conjunto do patrimônio, não como proteção automática.
Por fim, a tese depende de condições que podem mudar. Uma ruptura fiscal que desancorasse a dívida pública, ou reformas que reduzissem de forma duradoura o juro real neutro para níveis próximos aos de economias desenvolvidas, alterariam o peso relativo de cada classe de ativo. Nesses casos, a alocação deveria mudar, e a disciplina aqui defendida inclui reconhecer esse momento.
Cinco critérios que atravessam ciclos políticos
Os cinco critérios abaixo reúnem o modelo em uma lista de verificação, útil em qualquer cenário político.
Autonomia em relação a Brasília. Se a viabilidade da empresa ou da carteira depende de incentivos temporários, de condições especiais de crédito ou de uma decisão de governo, a estrutura está fragilizada.
Liquidez dimensionada pelas obrigações. O caixa disponível deve cobrir despesas familiares, compromissos tributários e necessidades da empresa sem venda forçada de ativos. O horizonte certo é o de cada família, não uma regra de bolso.
Diversificação de riscos que se movem juntos. Concentração por empresa, setor, classe de ativo, moeda e jurisdição precisa ser medida em conjunto, porque as exposições perigosas são as que se materializam ao mesmo tempo.
Governança resolvida antes da urgência. Regras de sucessão, transferência de cotas e conselho familiar devem estar formalizadas antes que um conflito ou uma mudança legislativa exija resposta improvisada.
Disciplina de alocação. Cada investimento é avaliado por objetivo, risco, custo e horizonte. Mudanças relevantes na alocação devem decorrer de uma reavaliação de riscos e retornos, não de uma previsão eleitoral isolada.
O que a urna não decide
A eleição de 2026 vai definir quem conduz o orçamento nos próximos quatro anos, e seus efeitos sobre juros, câmbio e preços podem ser relevantes. Os princípios que orientam a preservação da riqueza seguem os mesmos: juro composto, relação entre risco e retorno, estrutura societária. O que muda são as condições em que esses princípios operam. Por isso a política não deve ser ignorada, mas também não deve, sozinha, determinar a estrutura do patrimônio.
Em ano eleitoral, um risco frequentemente subestimado não está no resultado das urnas, mas no desvio tático tomado por causa dele.
A volatilidade dos preços na semana seguinte à votação é um evento de curto prazo. A erosão do patrimônio por decisões reativas é um evento de longo prazo.