Economia
14 de abril de 2026
6 min de leitura

A inflação vai subir, 5 fatores mostram por quê


Segundo o relatório de Global Wealth Management do UBS, o nosso ponto de partida não é confortável.

Pois, a inflação no Brasil não tem uma causa única Ela é resultado de vetores que atuam simultaneamente, alguns visíveis, outros mais sutis, mas igualmente relevantes.

O mais importante: cada um desses vetores tem dinâmica própria e responde de forma distinta à política monetária.

E entender essa diferença não é um exercício acadêmico.
É uma decisão patrimonial.

Vamos aos pontos.


(1) Limitação da transmissão monetária

Isso significa que, quando a Selic sobe, nem todo crédito obedece.

Em teoria, o aumento de juros deveria desacelerar a economia de forma relativamente homogênea: crédito mais caro, consumo menor, inflação cedendo.

Na prática, não é isso que acontece.

Hoje, cerca de 64% das concessões de crédito no Brasil operam a taxas reguladas ou direcionadas, como crédito rural, imobiliário e linhas subsidiadas.
Esses segmentos são, em grande medida, insensíveis ao movimento da Selic.

Ou seja, o mecanismo de transmissão da política monetária é parcial.

O Banco Central aperta, mas apenas uma parte da economia responde.

Ou, em termos mais simples:
o remédio chega — mas não no corpo inteiro.

E isso cria uma distorção relevante.

Enquanto o Banco Central atua para desacelerar a economia, o fiscal, muitas vezes, opera na direção oposta.

Nos últimos anos, a expansão de gastos obrigatórios e estímulos indiretos funcionou como um contraponto direto ao aperto monetário.

Resultado:

Ou seja, dois instrumentos, duas direções.

Resultado: perda de tempo.
E, mais importante, perda de eficiência.


(2) Geopolítica como fonte de choques de oferta

Há inflação que nenhum Banco Central controla.

E esse talvez seja um dos pontos mais negligenciados no debate público.

A política monetária é eficaz para conter demanda.
Mas não resolve problemas de oferta.

E hoje, uma parte relevante da inflação global vem exatamente daí.

Como:

Nos últimos anos, vimos exemplos claros disso:

Esse conjunto de fatores gera uma inflação que não responde à elevação de juros da mesma forma tradicional.

No mundo de hoje, esse vetor deixou de ser episódico.
Ele se tornou estrutural.

E não existe taxa de juros capaz de resolver um conflito geopolítico.


(3) Serviços: o núcleo duro da inflação

A inflação mais difícil de combater não está no preço das coisas.

Está no preço das pessoas.

Esse é o ponto central.

A inflação de bens pode ceder com normalização de cadeias e ajuste de demanda.
Mas a inflação de serviços está diretamente ligada ao mercado de trabalho.

E o Brasil vive um cenário particular:

Isso cria um ambiente onde salários crescem — e salários são custo.

E custo recorrente.

Por isso, a inflação de serviços tende a ser:

Não por acaso, a inflação de serviços em 12 meses foi de 5,60% (IPCA-15, março de 2026).

E esse número carrega uma mensagem clara:
o núcleo inflacionário segue pressionado.

É aqui que a política monetária encontra maior resistência.


(4) Expectativas frouxas geram tendências

Esse é um dos fatores mais silenciosos — e mais poderosos.

Inflação não é apenas um fenômeno presente.
Ela é, também, um fenômeno de expectativa.

Se agentes econômicos acreditam que a inflação será alta:

E isso, por si só, alimenta o processo.

No caso brasileiro, há um elemento adicional.

Desde a implementação do regime de metas, em 1999, a inflação rodou acima do centro da meta em aproximadamente 75% do tempo.

Isso não é neutro.

É uma memória coletiva.

Uma referência implícita que influencia decisões no dia a dia — muitas vezes sem que se perceba.

E essa memória torna o processo inflacionário:

Porque, no fim, credibilidade não se anuncia.

Se constrói.

E, mais importante:
se mantém com consistência ao longo do tempo.


(5) Fiscal: o vetor estrutural

Sem uma âncora fiscal crível, a desinflação tem prazo de validade.

Esse talvez seja o ponto mais relevante no horizonte de médio e longo prazo.

Não se trata apenas do déficit corrente.

Trata-se da trajetória da dívida pública.

Porque, no limite, inflação também é uma questão de confiança.

Quando o mercado questiona a solvência do Estado:

E isso retroalimenta o problema.

Não é sobre o déficit de hoje.
É sobre a capacidade de financiamento de amanhã.

Quando essa confiança se deteriora, o ajuste monetário perde potência — e o custo do ajuste aumenta.

E você sabe o que acontece quando expectativas ficam soltas.

Elas viram preços.

E preços altos “queimam” patrimônio.


Conclusão

A inflação não é um número.

É um sistema.

Um sistema composto por vetores que se sobrepõem, interagem e, muitas vezes, se anulam parcialmente — dificultando a leitura superficial do cenário.

Hoje, esse sistema é mais complexo:

Ignorar essa complexidade é um erro.

Porque, no fim, inflação não é apenas um tema macroeconômico.

É um fenômeno que impacta diretamente o poder de compra, o retorno real dos investimentos e a preservação do patrimônio ao longo do tempo.

E patrimônio não se constrói apenas com retorno.

Se constrói com proteção.

Porque, no fim das contas:

Preços altos “queimam” patrimônio.

Por Túlio Cavalcanti | Diretor de Consultoria

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