Segundo o relatório de Global Wealth Management do UBS, o nosso ponto de partida não é confortável.
Pois, a inflação no Brasil não tem uma causa única Ela é resultado de vetores que atuam simultaneamente, alguns visíveis, outros mais sutis, mas igualmente relevantes.
O mais importante: cada um desses vetores tem dinâmica própria e responde de forma distinta à política monetária.
E entender essa diferença não é um exercício acadêmico.
É uma decisão patrimonial.
Vamos aos pontos.
(1) Limitação da transmissão monetária
Isso significa que, quando a Selic sobe, nem todo crédito obedece.
Em teoria, o aumento de juros deveria desacelerar a economia de forma relativamente homogênea: crédito mais caro, consumo menor, inflação cedendo.
Na prática, não é isso que acontece.
Hoje, cerca de 64% das concessões de crédito no Brasil operam a taxas reguladas ou direcionadas, como crédito rural, imobiliário e linhas subsidiadas.
Esses segmentos são, em grande medida, insensíveis ao movimento da Selic.
Ou seja, o mecanismo de transmissão da política monetária é parcial.
O Banco Central aperta, mas apenas uma parte da economia responde.
Ou, em termos mais simples:
o remédio chega — mas não no corpo inteiro.
E isso cria uma distorção relevante.
Enquanto o Banco Central atua para desacelerar a economia, o fiscal, muitas vezes, opera na direção oposta.
Nos últimos anos, a expansão de gastos obrigatórios e estímulos indiretos funcionou como um contraponto direto ao aperto monetário.
Resultado:
- Crescimento acima do potencial
- Aumento do custo desinflacionário
- Necessidade de juros mais altos por mais tempo
Ou seja, dois instrumentos, duas direções.
Resultado: perda de tempo.
E, mais importante, perda de eficiência.
(2) Geopolítica como fonte de choques de oferta
Há inflação que nenhum Banco Central controla.
E esse talvez seja um dos pontos mais negligenciados no debate público.
A política monetária é eficaz para conter demanda.
Mas não resolve problemas de oferta.
E hoje, uma parte relevante da inflação global vem exatamente daí.
Como:
- Choques climáticos (impactando alimentos e energia)
- Disrupções em cadeias produtivas globais
- Tensões geopolíticas persistentes
- Pandemias e eventos sanitários
- Fechamento de rotas estratégicas (como estreitos e canais logísticos)
Nos últimos anos, vimos exemplos claros disso:
- Pandemia desorganizando cadeias globais
- Guerra na Ucrânia pressionando energia e grãos
- Tensões no Oriente Médio afetando rotas comerciais
- Eventos climáticos impactando safras e preços de alimentos
Esse conjunto de fatores gera uma inflação que não responde à elevação de juros da mesma forma tradicional.
No mundo de hoje, esse vetor deixou de ser episódico.
Ele se tornou estrutural.
E não existe taxa de juros capaz de resolver um conflito geopolítico.
(3) Serviços: o núcleo duro da inflação
A inflação mais difícil de combater não está no preço das coisas.
Está no preço das pessoas.
Esse é o ponto central.
A inflação de bens pode ceder com normalização de cadeias e ajuste de demanda.
Mas a inflação de serviços está diretamente ligada ao mercado de trabalho.
E o Brasil vive um cenário particular:
- Taxas de desemprego próximas a mínimas históricas
- Redução da participação da força de trabalho
- Pressão salarial persistente
Isso cria um ambiente onde salários crescem — e salários são custo.
E custo recorrente.
Por isso, a inflação de serviços tende a ser:
- Mais inercial
- Mais resistente
- Mais lenta para cair
Não por acaso, a inflação de serviços em 12 meses foi de 5,60% (IPCA-15, março de 2026).
E esse número carrega uma mensagem clara:
o núcleo inflacionário segue pressionado.
É aqui que a política monetária encontra maior resistência.
(4) Expectativas frouxas geram tendências
Esse é um dos fatores mais silenciosos — e mais poderosos.
Inflação não é apenas um fenômeno presente.
Ela é, também, um fenômeno de expectativa.
Se agentes econômicos acreditam que a inflação será alta:
- Empresas reajustam preços com mais frequência
- Trabalhadores pedem aumentos maiores
- Contratos incorporam prêmios inflacionários
E isso, por si só, alimenta o processo.
No caso brasileiro, há um elemento adicional.
Desde a implementação do regime de metas, em 1999, a inflação rodou acima do centro da meta em aproximadamente 75% do tempo.
Isso não é neutro.
É uma memória coletiva.
Uma referência implícita que influencia decisões no dia a dia — muitas vezes sem que se perceba.
E essa memória torna o processo inflacionário:
- Mais inercial
- Mais persistente
- Mais caro de combater
Porque, no fim, credibilidade não se anuncia.
Se constrói.
E, mais importante:
se mantém com consistência ao longo do tempo.
(5) Fiscal: o vetor estrutural
Sem uma âncora fiscal crível, a desinflação tem prazo de validade.
Esse talvez seja o ponto mais relevante no horizonte de médio e longo prazo.
Não se trata apenas do déficit corrente.
Trata-se da trajetória da dívida pública.
Porque, no limite, inflação também é uma questão de confiança.
Quando o mercado questiona a solvência do Estado:
- As expectativas de inflação se desancoram
- A curva de juros se eleva
- O prêmio de risco aumenta
- O custo de capital sobe para toda a economia
E isso retroalimenta o problema.
Não é sobre o déficit de hoje.
É sobre a capacidade de financiamento de amanhã.
Quando essa confiança se deteriora, o ajuste monetário perde potência — e o custo do ajuste aumenta.
E você sabe o que acontece quando expectativas ficam soltas.
Elas viram preços.
E preços altos “queimam” patrimônio.
Conclusão
A inflação não é um número.
É um sistema.
Um sistema composto por vetores que se sobrepõem, interagem e, muitas vezes, se anulam parcialmente — dificultando a leitura superficial do cenário.
Hoje, esse sistema é mais complexo:
- A política monetária perdeu parte da sua eficiência
- Choques de oferta tornaram-se mais frequentes
- O mercado de trabalho sustenta a inflação de serviços
- As expectativas carregam uma memória inflacionária persistente
- E o fiscal continua sendo o eixo estrutural do problema
Ignorar essa complexidade é um erro.
Porque, no fim, inflação não é apenas um tema macroeconômico.
É um fenômeno que impacta diretamente o poder de compra, o retorno real dos investimentos e a preservação do patrimônio ao longo do tempo.
E patrimônio não se constrói apenas com retorno.
Se constrói com proteção.
Porque, no fim das contas:
Preços altos “queimam” patrimônio.
Por Túlio Cavalcanti | Diretor de Consultoria