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Finanças Pessoais

25 de julho de 2022

4 Minutos de leitura

Quando a esmola é demais, o santo desconfia

 

CDB pagando IPCA+8,5% em um ano é uma bela oportunidade de se proteger da inflação, correto? O mercado é esperto e não dá ponto sem nó. Você se vê diante de uma “oferta imperdível”, mas a sua melhor opção é justamente deixá-la passar.  Explico.

 

Antes de tudo, é importante estabelecer um parâmetro que você vai poder utilizar para todas as ofertas que porventura venham a chegar na sua mesa. Oferta de renda fixa com rentabilidade muito acima do mercado também representa risco muito acima do mercado. Ou seja, sempre que você se deparar com um produto financeiro pagando algo muito acima das ofertas que a sua corretora disponibiliza diariamente, significa que tem algo ali.

 

Porém, diante dessa oferta, é possível que você imagine que o IPCA+8,5% foi emitido por um banco com balanço duvidoso, correto? Errado. Se trata de um dos melhores bancos do país e essa oferta, na verdade, significa um produto muito bem estruturado para o banco, não pra você.

 

Isso porque a expectativa para os próximos meses é deflacionária. Ponto final. Esse texto já poderia terminar por aqui, mas é natural que as pessoas pensem: “o mercado vem errando as projeções de inflação há algum tempo, isso não seria um problema?”

 

Sim. Houve, de fato desancoragem das expectativas de inflação onde, primeiramente, a divulgação do índice vinha acima do esperado, mas nos últimos meses o mercado se viu surpreendido para baixo. Em junho, por exemplo, a inflação foi de 0,67% diante de uma expectativa de 0,71%. Para o mês de julho, o mercado espera arrefecimento do índice para apenas 0,15%.

Essa perda de ímpeto foi causada pela redução nos preços dos combustíveis, assim como na energia elétrica. Ou seja, tinha uma PEC no meio do caminho. Mas aí você pode pensar: “e se der errado, afinal sempre somos surpreendidos pela inflação, não?”

 

Vamos lá. A Selic hoje paga 13,25% ao ano e nas próximas semanas possivelmente vai pagar 13,75%. Isso significa juros reais próximos a 6% para os próximos 12 meses. Já o IPCA+8,5% pode representar 14,5% (o mercado precifica inflação de 6%) na melhor das hipóteses. Mas, havendo deflação em alguns meses você perde para o CDI.

 

O ponto principal aqui não está na competição entre quem vai ganhar ou perder. O que realmente importa é que o prêmio para ficar preso no produto é muito pequeno e arriscado diante da possibilidade de “sentar em cima” de 13,75% e poder sacar a qualquer momento, inclusive, na hipótese de uma grande queda na bolsa.

 

E aí você me pergunta: e se o vencimento do IPCA+8,5% fosse de, na verdade, três ou quatro anos? Aí sim, seria interessantíssimo diante da perspectiva da SELIC voltar a baixar em 2023. Por isso preferimos se expor a indexados dentro de vértices de médio prazo (2025, 26), pois, de fato seria uma proteção da inflação. Afinal, muita coisa vai acontecer daqui pra lá, não sabemos quem será o próximo presidente e qual o grau de austeridade fiscal que será implementado. O próprio teto de gastos está muito mais para uma choupana do que uma laje de uma casa bem arquitetada.

 

Enfim, esse é apenas um exemplo para mostrar que todo produto deve ser analisado em termos de risco vs retorno, além de comparado com o CDI e com a possibilidade de ter liquidez muito bem remunerada. Na dúvida, não se esqueça: quando a esmola é demais, o santo desconfia. É como costumam dizer no mercado: there is no free lunch. Não existe almoço grátis.

 

Por Túlio Cavalcanti

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